O primeiro Hotel Social do Distrito Federal, inaugurado em julho pelo Governo do Distrito Federal (GDF), já se consolidou como um importante equipamento da política de assistência social. Gerido pela Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF), o espaço soma mais de 20 mil acolhimentos noturnos, oferecendo abrigo seguro, dignidade e apoio a pessoas em situação de rua.
A unidade funciona diariamente das 19h às 8h, com capacidade para 200 pessoas, e se diferencia por permitir que os acolhidos permaneçam com seus animais de estimação, fator considerado essencial para ampliar a adesão ao serviço.
Segundo o secretário-chefe da Casa Civil e coordenador do Plano Distrital para a População em Situação de Rua, Gustavo Rocha, o Hotel Social integra um conjunto de ações que vai além do abrigo emergencial. A proposta é criar condições reais para que as pessoas consigam sair das ruas com autonomia, acesso a trabalho e reconstrução de vínculos.
De acordo com ele, o plano distrital rompe com práticas antigas, que apenas deslocavam a população de um local para outro. “A prioridade é acolher, garantir um lugar seguro para dormir e oferecer caminhos para o emprego e a reconstrução da vida”, afirma.
O planejamento das ações foi baseado em estudos técnicos realizados pela Casa Civil em parceria com outros órgãos do governo. O levantamento identificou necessidades como moradia temporária, capacitação profissional, acesso à educação, atendimento aos filhos e espaços adequados para os animais de estimação. A inclusão dos pets, segundo Rocha, foi decisiva para que muitas pessoas aceitassem o acolhimento.
Com alta taxa de ocupação diária, o Hotel Social já se tornou referência, e a expectativa do GDF é ampliar o modelo para outras regiões administrativas do DF.
Atendimento para diferentes perfis
O serviço atende idosos, mulheres, crianças e pessoas em tratamento contra dependência química. Os acolhidos têm acesso a cama, banho quente, guarda de pertences, ventilação adequada, jantar e café da manhã. Em novembro, o espaço também passou a contar com uma biblioteca comunitária, com livros disponíveis para leitura e empréstimo.
O Hotel Social integra a rede de assistência do GDF, que inclui serviços como o Centro Pop, restaurantes comunitários, concessão de passagens interestaduais para quem deseja retornar ao estado de origem e programas de qualificação profissional e geração de emprego, como o RenovaDF e o QualificaDF.
Segurança como ponto de partida
A iniciativa surgiu durante a pandemia de Covid-19, quando o fechamento do comércio aumentou a vulnerabilidade da população em situação de rua. A experiência com alojamentos provisórios mostrou que o pernoite seguro poderia ser a porta de entrada para outros serviços sociais. A partir disso, o modelo foi estruturado e passou a funcionar de forma permanente.
Para a secretária de Desenvolvimento Social, Ana Paula Marra, o pernoite facilita o vínculo com pessoas que ainda não se sentem prontas para ingressar em casas de acolhimento. “Dormir em segurança melhora a adesão aos serviços e abre caminho para tratamento, reinserção familiar, alimentação e inclusão produtiva”, explica.
Histórias de recomeço
Entre os acolhidos está Maicon Gonçalves, que veio de Goiás em busca de estudo e trabalho, mas acabou perdendo o emprego e o aluguel. Após dois meses vivendo nas ruas de Taguatinga, enfrentou problemas de saúde, como pneumonia e tuberculose.
Ele relata que a falta de endereço fixo dificulta o acesso ao mercado de trabalho. Com o apoio do Hotel Social, conseguiu reorganizar a rotina. “Aqui eu durmo tranquilo, tomo banho, me alimento e consigo sair no dia seguinte para procurar emprego”, conta. Maicon também destaca o atendimento humanizado e a sensação de segurança no local, especialmente após experiências de violência vividas nas ruas.
Agora, seus planos incluem retomar a vida profissional, cuidar da saúde e reconstruir laços afetivos. Para ele, o Hotel Social representa uma pausa no ciclo da rua e uma oportunidade real de recomeço.
Acompanhamento individual e integração de políticas
Segundo Ana Paula Marra, cada pessoa acolhida possui uma história diferente e exige uma resposta específica. A partir do pernoite, os usuários podem ser encaminhados para tratamentos de saúde, retorno à cidade de origem, cursos de qualificação, vagas de trabalho e, em alguns casos, acesso a benefício temporário de aluguel.
Gustavo Rocha destaca que a integração entre acolhimento e emprego é fundamental para resultados duradouros. De acordo com ele, mais de 200 pessoas já foram inseridas no mercado de trabalho por meio das ações do plano, e milhares receberam apoio para retornar às suas cidades de origem de forma voluntária.
“Quando vemos alguém conquistar um trabalho e um lugar para morar depois de tanto tempo na rua, temos a certeza de que a política pública está funcionando”, resume o secretário.
Doações
O Hotel Social também recebe doações de roupas, livros e itens de higiene pessoal. As entregas podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, no SAAN/SIA, Trecho 17, Conjunto 3, em Brasília.
